Jaguarão: alguns aspectos de sua história

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Fonte: Instituto Histórico e Geográfico de Jaguarão. Desenho da cidade atribuído a uma equipe francesa, contratada por D.Pedro II, para retratar lugares do Brasil. Desenho de 1817. (Data e autor a confirmar)

A região onde hoje se encontra Jaguarão, primeiramente foi território indígena. Neste espaço geográfico do Pampa, uma nação viveu, por milhares de anos, sendo classificada pelos estudiosos como Tradição Umbu.  Com o tempo, tornaram-se ceramistas nômades da zona pampiana, e seus vestígios, potes de barro cozido, são identificados pelos arqueólogos como Tradição Vieira.  Com a chegada dos colonizadores passariam a ser chamados de Minuanos pelos espanhóis e portugueses ou Guenoas pelos jesuítas. (1) Deles sobrou apenas a história e os vestígios arqueológicos.

          Com a vinda dos europeus estas terras passam a ser disputadas  pelas Coroas espanhola e portuguesa,  o que acabou forçando a assinatura de vários tratados. O mais importante foi o de Madri (1750) no qual o RS acaba ficando praticamente com o mapa atual, ligado à Coroa Portuguesa. Porém, na prática isto não se concretiza e só em 1801, com o Tratado de Badajós, fica estabelecida a fronteira, tendo o Rio Jaguarão e o Arroio Chuí como limites entre Portugal e Espanha.  Por conta disso, Portugal envia uma Guarda Militar para às margens do Rio Jaguarão,  dando origem ao povoado que mais tarde se tornaria uma das principais cidades gaúchas no século XIX.   De Guarda da Lagoa e do Serrito (1802) se transformará logo em seguida na Freguesia do Divino Espírito Santo de Jaguarão (1812).

Em 1832 é elevada a Vila, que na época tinha status de município, pela autonomia que possuíam. Neste período havia uma radicalização na província, que geraria em seguida a Guerra dos Farrapos. Nossa Câmara Municipal foi a 1ª a declarar apoio à  República do Piratini.

      A cidade foi se desenvolvendo a partir do comércio e contrabando com o Uruguai, e a partir da 2ª metade do séc. XIX, começa ser edificado o casario que até hoje ostenta sua imponência aos turistas que aqui chegam.

       Em 1845, o então Conde de Caxias determina a construção de várias fortificações no RS para proteção do Brasil, porém só foi erguido efetivamente o Forte D. Pedro II em Caçapava do Sul.  Em Jaguarão, o projeto seria no Cerro da Pólvora,  porém ainda não temos evidência que tenha sido iniciado. O trabalho arqueológico realizado em janeiro de 2011 nas ruínas da Enfermaria, dentro do Processo da  criação do Centro de Interpretação do Pampa, não identificou nenhum registro. No entanto, ainda não está descartada a hipótese, pois esta construção teria sido pensada para mais acima, próximo à torre de TV.

       Em 1846 ganhamos uma sede ecleseástica (Católica), o que levou ao começo das obras da Igreja Matriz do Divino Espírito Santo, concluída em 1867, no local onde se encontrava a antiga Igreja.

    Em 23 de novembro de 1855 Jaguarão é elevada a Cidade.  É considerado o 12º município gaúcho.  Em 1864 são iniciadas as obras do atual Mercado Público, concluído em 1867.    Em 27 de Janeiro de 1865, aconteceu o célebre conflito  com os orientais, dentro do contexto das guerras platinas.  Para desviar a atenção do Brasil sobre Montevidéu, o Cel. Munhós ataca Jaguarão, entrando pelo Paço da Armada. A Guarnição local, em número inferior, sob o comando do Cel. Manuel Pereira Vargas, juntamente com os policiais e a população local, conseguiu resistir, até a retirada dos invasores.  Isto rendeu a Jaguarão o título de Cidade Heróica.

 Fonte: Instituto Histórico e Geográfico de Jaguarão. Aquarela achada em um Sebo em Montevidéo e doada ao Instituto Histórico e Geográfico de Jaguarão. Datada de 1880. Autor desconhecido.
Fonte: Instituto Histórico e Geográfico de Jaguarão. Aquarela achada em um Sebo em Montevidéo e doada ao Instituto Histórico e Geográfico de Jaguarão. Datada de 1880. Autor desconhecido.

Jaguarão se manteve entre as principais cidades gaúchas, tanto na política como na economia, até o início do século XX.  Seu desenvolvimento recuou quando da construção da ferrovia Rio Grande-Bagé e posteriormente Montevidéu-Rio Branco, uma vez que sua economia baseava-se fundamentalmente no comércio com o Uruguai.  A posse de Carlos Barbosa no Governo do Estado em 1909 e a construção da Ponte Internacional Mauá, concluída em 1930, fez com que a cidade ainda mantivesse status político e uma movimentação de capital e trabalho. Contudo, nas décadas posteriores dar-se-á um recuo econômico e a cidade, apesar de ter mantido seu status por longo período, pouco a pouco  vai  perdendo   prestígio e elementos que constituíam sua vida: aeroporto, fábrica de café, atividades culturais, jornais, políticos influentes no Estado, etc.  Isto tudo passou a pesar no inconsciente das pessoas, chegando a formar-se a ideia negativa “Jaguarão do  já teve”.   Este, talvez seja o grande desafio para os atuais gestores, não apenas políticos, mas das mais variadas entidades da cidade.  Resgatar a auto-estima da população, demonstrar que Jaguarão é uma “Jóia rara da arquitetura brasileira” e que estava em processo de hibernação, mais ou menos como nos foi colocado por um fotógrafo da National Geográfica que aqui esteve em setembro de 2009.

Paisagem antiga do Centro Histórico de Jaguarão. Com exceção (infelizmente) da esquina, onde hoje é o Banco do Brasil, os demais prédios, com algumas variações (o sobrado ganhou mais um andar) e a praça, que hoje é o Largo das bandeiras, mantém-se tal como eram.
Paisagem antiga do Centro Histórico de Jaguarão. Com exceção (infelizmente) da esquina, onde hoje é o Banco do Brasil, os demais prédios, com algumas variações (o sobrado ganhou mais um andar) e a praça, que hoje é o Largo das bandeiras, mantém-se tal como eram.

A publicidade estadual e nacional em torno do Tombamento do Centro Histórico da Cidade, e do tombamento Binacional da Ponte Internacional Mauá, é um dos aspectos que vem demonstrar este novo caminho, ou nova maneira de caminhar. E claro que não chegaríamos a este patamar se não tivéssemos  um grupo  de pessoas certas,  em lugares certos, e no momento certo.   Agora é cuidar e aproveitar aquilo que na maioria das cidades, sobretudo as de grande porte, não existe mais, e que aqui temos em abundância: um patrimônio material e imaterial invejável, prédios, cultura e memória, inclusive na zona rural,  um rio extremamente poético, uma paisagem ímpar, entre outros elementos.  A cidade é capaz de deixar perplexo, positivamente, um turista que por ventura fique algumas horas em Jaguarão, mesmo sem termos ainda infra-estrutura necessária para recebê-los em grande quantidade. Se conseguirmos superar as limitações que possuímos, e partirmos para a ofensiva, seguramente esta cidade, juntamente com seu entorno e a cidade irmã Rio Branco (Uruguai), será parada obrigatória para qualquer viajante ou turista.   “Somos uma pérola que havia ficado perdida.  Agora temos que apossarmo-nos dela, e mostrá-la para o resto do mundo.”

Carlos José de Azevedo Machado  (Prof. Maninho)

  1. Pereira, Claudio Corrêa. Minuanos/Guenoas. Os Cerritos da bacia da Lagoa Mirim e as origens de uma nação pampeana. Porto Alegre: Fundação Cultural Gaúcha-MTG, 2008. (fragmentos)    

Fonte: Confraria dos Poetas de Jaguarão

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