A equipe do Jornal Diário Popular teve acesso, com exclusividade, a caminho subterrâneo que ligava o prédio da Igreja da Matriz Divino Espírito Santo à loja da Maçonaria

Na típica manhã de outono, Maria e Carla Lopes cruzam a passos curtos o Largo das Bandeiras, localizado na região central do município. Logo à frente, em direção ao rio, avistam uma imponente construção, velha conhecida de mãe e filha, naturais de Jaguarão. Mas enquanto aproveitam tranquilamente os raios do sol que paira sobre a cidade, ao serem questionadas sobre uma antiga história envolvendo a construção da Igreja Matriz do Divino Espírito Santo, manifestam-se num misto de curiosidade e ceticismo: “Túneis? Em baixo da Igreja? Nunca ouvi falar”, respondem.
Túneis sob Jaguarão
Na última semana o Diário Popular foi até o município na fronteira que divide o Brasil do Uruguai para trazer à tona uma história pouco conhecida até mesmo pelos próprios jaguarenses. Porém, suficientemente importante para mexer com as expectativas de pessoas ligadas ao projeto encaminhado ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) que deve revitalizar o templo símbolo do município.
Ao entrar pelas portas da igreja praticamente vazia, apenas um pardal voa solitário entre os afrescos que decoram as paredes. “Entrou por uma das fendas no teto”, diz o padre Hamilton Centeno, à frente da paróquia do Divino Espírito Santo há dois anos. Os bancos vazios contemplam a estrutura metálica que sustenta a parte de cima da construção deteriorada pelo tempo. Uma medida de urgência no valor de R$ 90 mil tomada pelo Iphan para salvar o prédio comprometido.
No fundo da Igreja está o belo altar de madeira. Porém, ao contorná-lo vê-se sua outra face, de madeira crua, bastante ocupada por cupins.

No chão, o padre Hamilton levanta algumas tábuas soltas no chão e mostra um buraco no assoalho. “Aqui é a antiga passagem de entrada do túnel”, diz.

Mas para acessar a parte visível da estrutura subterrânea é preciso entrar pela parte detrás do templo, na casa paroquial. Logo, junto aos alicerces da igreja, embaixo da sacristia e longe dos olhos dos fiéis vê-se um arco cuja frente foi tapada por terra.
Aos 61 anos, o jaguarense Claudino Neves Corrêa é o estudioso responsável por fazer um dos primeiros grandes resgates do desenvolvimento da paróquia. De acordo com ele, o túnel é tema de várias histórias, mesmo que nenhum documento de tombamento mencione a construção. A cultura popular diz que o túnel ligava a Igreja à antiga Casa da Freguesia ou Casa da Oficialidade. Local da primeira residência dos comandantes da guarda, instalada em 1802. “Quase todos os grandes líderes militares brasileiros moraram ali.” Haveria ainda uma ligação com a Loja Maçônica, localizada a cerca de 170 metros da igreja. “Esses eram os poderes da época”, conta.
Ainda, de acordo com Corrêa, há anos um vizinho da Igreja, ao fazer uma reforma, teria encontrado parte do túnel mas em seguida tratou de desmanchar por medo de que a descoberta interrompesse a reforma. “Não temos ideia de quando o túnel foi feito, mas acreditamos que tenha sido construído juntamente com a Igreja e com a loja Maçônica, que tem inscrita na fachada a data de 1854.”
A arquiteta responsável pelo projeto de restauração da igreja, Simone Neutzling, afirma que a elaboração do trabalho já está na fase final. “Encontramos os indícios do túnel, mas não podemos mexer ainda”, explica. Por isso, está prevista na execução da obra o estudo arqueológico do prédio. “Colocamos uma observação de que a empresa vencedora da licitação precisará contratar o trabalho da arqueologia para que o túnel seja investigado.” Simone também foi responsável pelo dossiê de tombamento da cidade em 2011 como patrimônio cultural do país. “Só poderemos conhecer mais sobre o túnel e sua existência no decorrer da obra, mas tecnicamente é viável, já que fizemos a descrição do sistema construtivo da Igreja”, diz.
  
De acordo com o livro Caminhando através da história, de Vagner Pacheco dos Santos, a área onde hoje está localizada a cidade era motivo de atritos e desavenças entre as coroas portuguesa e espanhola. Em 15 de fevereiro de 1801 foi erguida a capela. Em seguida, em 1802, foi estabelecida propriamente a chamada Guarda da Lagoa e do Serrito. Com o crescimento e a evolução do acampamento militar, teve início a formação dos aglomerados de casas que originaram o povoado. Em 1812 o povoado foi elevado à Freguesia do Divino Espírito Santo de Jaguarão.
Em 1847 tiveram início as obras de construção da Igreja Matriz do Divino Espírito Santo, em estilo Barroco, a qual foi concluída somente em 1875.

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